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Wagner Matheus é jornalista (MTb nº 18.878) há 45 anos. Mora na Vila Guaianazes há 20 anos.

Bertolt Brecht

 

1

É verdade, eu vivo em tempos negros.

Palavra inocente é tolice. Uma testa sem rugas

Indica insensibilidade. Aquele que ri

Apenas não recebeu ainda

A terrível notícia.

Que tempos são esses, em que

Falar de árvores é quase um crime

Pois implica silenciar sobre tantas barbaridades?

Aquele que atravessa a rua tranquilo

Não está mais ao alcance de seus amigos

Necessitados?

Sim, ainda ganho meu sustento

Mas acreditem: é puro acaso. Nado do que faço

Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.

Me dá direito a comer a fartar.

Por acaso fui poupado. (Se minha sorte acaba, estou perdido.)

As pessoas me dizem: Coma e beba! Alegre-se porque tem!

Mas como posso comer e beber, se

Tiro o que como ao que tem fome

E meu copo d’água falta ao quem tem sede?

E no entanto eu como e bebo.

Eu bem gostaria de ser sábio.

Nos velhos livros se encontra o que é a sabedoria:

Manter-se afastado da luta do mundo e a vida breve

Levar sem medo

E passar sem violência

Pagar o mal com o bem

Não satisfazer os desejos, mas esquecê-los

Isto é sábio.

Nada disso sei fazer:

É verdade, eu vivo em tempos negros.

 

2

À cidade cheguei em tempo de desordem

Quando reinava a fome.

Entre os homens cheguei em tempo de tumulto

E me revoltei junto com eles.

Assim passou o tempo

Que sobre a terra me foi dado.

A comida comi entre as batalhas

Deitei-me para dormir entre os assassinos

Do amor cuidei displicente

E impaciente contemplei a natureza.

Assim passou o tempo

Que sobre a terra me foi dado.

As ruas de meu tempo conduziam ao pântano.

A linguagem denunciou-me ao carrasco.

Eu pouco podia fazer. Mas os que estavam por cima

Estariam melhor sem mim, disso tive esperança.

Assim passou o tempo

Que sobre a terra me foi dado.

As forças eram mínimas. A meta

Estava bem distante.

Era bem visível, embora para mim

Quase inatingível.

Assim passou o tempo

Que nesta terra me foi dado.

 

3

Vocês, que emergirão do dilúvio

Em que afundamos

Pensem

Quando falarem de nossas fraquezas

Também nos tempos negros

De que escaparam.

Andávamos então, trocando de países como de sandálias

Através das lutas de classes, desesperados

Quando havia só injustiça e nenhuma revolta.

Entretanto sabemos:

Também o ódio à baixeza

Deforma as feições.

Também a ira pela injustiça

Torna a voz rouca. Ah, e nós

Que queríamos preparar o chão para o amor

Não pudemos nós mesmos ser amigos.

Mas vocês, quando chegar o momento

Do homem ser parceiro do homem

Pensem em nós

Com simpatia.

 

Eugen Bertholt Friedrich Brecht foi um destacado dramaturgo, poeta e encenador. Nasceu em 10 de fevereiro de 1898 em Augsburgo (Alemanha) e morreu em 14 de agosto de 1956 em Berlim Leste (Alemanha). Um dos mais importantes intelectuais do século 20, tanto na dramaturgia quanto na literatura. Atuou na Primeira Guerra Mundial como enfermeiro e, com o surgimento do nazismo, se exilou na União Soviética.

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> Júlio Ottoboni é jornalista (MTb nº 22.118) desde 1985. Tem pós-graduação em jornalismo científico e atuou nos principais jornais e revistas do eixo São Paulo, Rio e Paraná. Nascido em São José dos Campos, estuda a obra e vida do poeta Cassiano Ricardo. É autor do livro “A Flauta Que Me Roubaram” e tem seus textos publicados em mais de uma dezena de livros, inclusive coletâneas internacionais.

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