Ilustração / Pixabay

Wagner Matheus é jornalista (MTb nº 18.878) há 45 anos. Mora na Vila Guaianazes há 20 anos.

Sempre acreditei que a vida moderna seria bastante moderna. Mas não precisavam exagerar. Não basta a Tecnologia da Informação (TI) criar os mais incríveis recursos para tudo acontecer, desde os serviços on line como as compras e pagamentos por aplicativos, a comunicação pelas redes sociais, o e-commerce, os pedágios das estradas sem precisar parar, os diagnósticos por telemedicina, a declaração de Imposto de Renda direto no site da Receita Federal sem as chateações de antigamente. Tinha que haver um preço a pagar: as malditas senhas para ter acesso a tudo isto.

A coisa começou devagar. Senha para o cartão do banco, ok, tudo certo. Depois, a passos lentos, porém decididos, foram nos obrigando a criar cada vez mais senhas para viver de uma forma minimamente moderna. Vieram as senhas para entrar nos sites de serviços públicos, depois as senhas para entrar nos sistemas de escolas, faculdades e outros serviços e comércios.

Não contentes com uma senha só, os bancos criaram senhas diferentes para abrir aplicativos (seis dígitos), compras com cartão on line (quatro dígitos) e outras operações com cartão (seis dígitos). Tudo seguido de uma terrível ameaça: se errar pela terceira vez na hora de digitar a senha, o seu acesso trava e você tem que ir ao banco para resolver o problema.

Como você está vendo, aquela vida “facinha” que a TI nos prometeu não é tão fácil assim. A não ser que você também seja um robô –e um robô infalível. O sistema está sempre pronto para provar que você é um imbecil e que a paciência das máquinas com a sua burrice está por um fio.

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Para te provar isso, vários portais, sites e aplicativos vão além: julgam se a sua senha é ruim, média, boa ou ótima, e fazem você ir submetendo a eles a sua obediência. “coloque algumas letras maiúsculas e outras minúsculas, intercale com sinais diferentões, nem pense em colocar iniciais do seu nome e data de nascimento…”. Você vai seguindo as ordens e, como um aluno da educação infantil, recebe a nota: “sua senha ainda está fraca, tente de novo”.

Como eu nunca fui um nerd disposto a manter uma relação de amizade com essas máquinas, no início tentei enganá-las usando uma mesma senha para todos os chatos que me pediam para criar senha. Mas não deu certo. Alguns definem um tempo de validade para a senha e depois mandam você atualizar a sua com uma outra completamente diferente. Que saco!

Alguns acessos são um pouco mais amigáveis e dão a possibilidade de você salvar a senha para não precisar digitá-la a cada acesso. Mas o sistema não é 100% eficiente e vai chegar um dia em que você vai ficar de fora e terá que repetir tudo de novo.

É claro que eu, legítimo representante da geração que assistiu à Copa de 1970, usava ficha para falar pelo “orelhão” e usava decalcomania para decorar trabalhos escolares, amenizo esses problemas que a TI criou para a minha vida da maneira mais simples e antiquada: com papel e caneta.

Tenho um cadernão, daqueles que antigamente eram chamados “universitários” e lá estão bem escritinhas todas as minhas senhas. São mais de 20, desde as importantes, até aquelas que fazem você se sentir um idiota por ter que usar. Portanto, senhores hackers, este meu caderno seria muito útil nas mãos de vocês. Espero que ninguém tenha acesso à minha gaveta. Se é que vocês precisam disso…

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Para terminar este desabafo contra o lado enrolado da tecnologia, relato uma situação que presenciei ontem à noite quando fui com a minha mulher fazer uma compra no Atacadão. No caixa ao lado do nosso, um sujeito que estava com a filhinha começou a se descabelar quando foi informado que a empresa do seu cartão de compra –não me lembro a bandeira– estava com problemas e não daria para fechar a compra.

Não era uma comprinha qualquer, eram dois carrinhos do padrão Atacadão, aqueles enormes, que o cliente levou pelo menos uma hora e meia para encher, passar com tudo aquilo no caixa e, no final, na hora de marcar o gol com o seu belo cartão, até ser comunicado que foi tudo tempo perdido. Alucinada, a “vítima” deixou tudo lá e voltou para casa depois de pagar, sei lá como, apenas um ovo de Páscoa que a criança já havia aberto.

Pessoal de TI, em vez de atazanar a nossa vida com essa história de senhas e mais senhas, que tal criar uma “senha” para resolver problemas desse tipo? Ou os seus robôs acham que os pobres mortais só foram feitos para obedecer?

Falando nisso, como você lida com essa guerra usuário x senha? Comente aí onde leu este texto. Ah, fique tranquilo, você não vai precisar criar uma nova senha para isso.

 

Wagner Matheus é jornalista (MTb nº 18.878) há 49 anos. É editor do SuperBairro. Mora na Vila Guaianazes há 24 anos.

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