Não tenho tantas lembranças de minha mãe quanto gostaria. Acho que por ela ter ido embora prematuramente se comparado, por exemplo, com meu pai, quase um centenário quando se foi, em 2011.
Guardo bem viva a compleição física de Maria da Conceição –este o nome dela–, que era atarracadinha, coadunando com a pouca estatura, e sua origem estava no sangue e na pele. Seu andar era sereno e, o cabelo, crespo e curto; mulher de forte temperamento, porém doce e meiga.
Meus irmãos diziam que quando eu era criança ela gostava mais de mim que deles. Não ignoro. Mas, menos por eu ser a rapa do tacho; mais por ter contraído, com dois anos de idade, uma poliomielite que me penalizou durante anos na meninice.
Usei aparelho corretivo e sapato especial, fiz três cirurgias e muitas horas de fisioterapia para, só então, alcançar um resultado satisfatório. Como meu pai trabalhava de sol a sol, coube a minha mãe me acompanhar nessa via crucis.
Por isso meu irmão Geraldo penou um pouco. Eu tinha dez anos, ele onze. Naquela ocasião, depois das aulas da manhã, eu e ele cuidávamos de ganhar um dinheirinho vendendo pirulitos para dona Leontina, que morava na praça Carlos Gomes. O produto era de qualidade, tinha boa aceitação e a comissão compensava.
Geraldo pegava 50 unidades e eu 80, às vezes 100. No meio da tarde ele tinha vendido todos os seus puxa-puxas e eu a metade ou um pouco mais. Então minha mãe intervia para obrigar meu irmão a comercializar os pirulitos que sobravam no meu tabuleiro. Sei disso porque me contam, pois não me lembro, juro!

Ainda vejo minha mãe fritando bife numa panelinha de ferro quebrada na borda; também me é cristalino seu pular da cama às 4h da manhã para preparar o café e o virado de feijão com frango que a gente levava para Aparecida nas romarias.
Recordo-me ainda dela saindo cedo, aos domingos, para a missa no Santuário São Judas Tadeu, no Jardim Paulista. Na Vila Progresso, ia na companhia de dona Anésia; depois, no Jardim Jussara, de dona Isolina e dona Ana, sua irmã, que morava na mesma avenida. Levava no bolso do vestido a fita vermelha do Apostolado da Oração, que ornamentava seu pescoço na missa.
Na avenida Juscelino Kubitschek de Oliveira, onde a gente morava, todos os dias dona Maria protagonizava um quase ritual. No finalzinho da tarde, depois de finalizar as tarefas domésticas, ela pegava uma pequena caixa de madeira sobre o fogão a lenha e se sentava num banco na área nos fundos da casa.
Do estojo retirava um canivete, um pedaço de fumo de rolo e um pito de barro. Picava boa quantidade do tabaco, punha no pito, acendia e pitava gostosamente. Às vezes era acompanhada por dona Isolina, comadre e vizinha. As duas pitavam e conversavam um tempão.
Dona Maria trouxera da roça, desde moça, o costume de pitar no pito. Nem nas viagens privava-se das baforadas. Onde estivesse, em determinada hora do dia ela retirava-se sorrateira para um canto ao ar livre, acendia o cachimbo e pitava. Nem que fosse um pouco, para matar as bichas.
Como não gostava de cigarro de papel, nas viagens levava numa clutch –uma espécie de bolsa de mão– um pito de piteira menor que a usual, fumo picado e um isqueiro ou fósforo. Não por isso, certa vez experimentou episódio hilário.

Logo após me casar fui a São Paulo visitar o casal Neusa e Serafim, irmã e cunhado de minha mulher. Minha mãe foi junto. Depois da hospitaleira recepção e de um dedo de prosa, mamãe quis ir à feira-livre em frente da casa, na rua Benjamin Pereira, no Jaçanã, zona norte da capital. Levou a bolsa tiracolo.
Naquele reduto comercial vendia-se de tudo e a intensa muvuca tornava inevitável o rela e rala. Distraída com a nunca vista movimentação, minha mãe não percebeu a ação do amigo do alheio. O astuto ladrão cortou com uma lâmina o lado da bolsa e surrupiou-lhe a clutch onde, dado o volume, pensou ter lavado a égua.
Até hoje dou risada imaginando a cara de tacho do larápio ao abrir a bolsinha e deparar com um punhado de fumo, uma caixa de fósforos amassada e um pito sarrento. O dinheiro? Ficou na tiracolo, amarrado num lenço sutilmente atado por uma das pontas à alça da bolsa.
A contragosto, naquele dia minha mãe fumou cigarro de papel, mas o malandro literalmente levou fumo.
> Carlos José Bueno é jornalista profissional (MTb nº 12.537). Aposentado e no ócio, brinca. Com os netos e as palavras.

